A pré-história de um automóvel [pt2] – Test Drives.

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Depois de uma curta mas extensa fase de pesquisa (sigam o link), chegou então a altura de escolher os primeiros candidatos a uma visita de testes. De todos os possíveis candidatos listados no post anterior, estes foram os que selecionei para a primeira jornada, por serem os que satisfaziam o maior número de critérios estabelecidos anteriormente:

  • (82) Fiat 127 Mk2 – ? Km
  • (88) Peugeot 205 GT – 47.000
  • (78) Fiat 127 Mk2 – 68.000
  • (81) Toyota Corola 1.3 DX Liftback – 82.000
  • (94) Fiat Panda 1.0 Fire – 56.000
  • (88) Toyota Starlet ep70 1.0 – 147.000
  • (88) Seat Ibiza System Porsche 1.2 – 189.000*

Nunca tinha assistido pessoalmente a um test drive e muito menos conduzido num. Os chavões por vezes confirmam-se, e a verdade é que, como poderão ler, só custou à primeira. Até então, não tinha base de experiência de compra de carro, então estava um pouco nervoso. Dadas a necessidades, uma experiência distinta que inexperadamente me deu confiança para este processo foi o meu histórico mais ou menos calejado de procura de apartamentos para arrendamento. Um soft skill bastante útil que tive que aprender a dominar quando vim estudar para fora da minha cidade natal. Garanto que algumas das regras principais aplicam-se em ambas as àreas:
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  • Não te apaixones pelo primeiro anúncio.
  • Não ignores problemas óbvios (derivado do ponto anterior).
  • Não te percepites nem escolhas de cabeça quente, por mais que o vendedor te pressione*
  • Faz cálculos a médio/longo prazo.
  • Leva mecânico/empereiteiro (emepereiteiro não é obrigatório).
  • Conduz e deixa alguém mais experiente que tu conduzir (não conduzas uma casa!).

*Olhe que lá fora fazem fila para ver o carro! Arrisca-se a ficar sem ele! (Passado meses o anúncio ainda está online, mas com o preço mais baixo)


 

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1ª VISITA – A minha primeira paragem foi com um Fiat 127 Mk2 (um carro que gosto muito). Esta visita quase ilustra a primeira regra que acabei de listar: Foi um caso típico de paixão ao primeiro anúncio: As fotos eram incríveis, a cor era perfeita, o preço era convidativo, e até tinha a descrição mágica (…) em muito bom estado.. Tinha tudo para correr bem! No entanto, com o tempo, aprendi que “em muito bom estado” é considerada a expressão mais relativa do léxico automobilístico. (No fundo eu sabia isto, porque um Fiat 127 para estar realmente em muito bom estado, tinha que custar várias vezes mais o preço ali estabelecido. Só não queria acreditar)

Para começar, quem me recebeu não foi o dono/condutor do carro. (Mau sinal!) Foi a mulher do dono, que apesar de muito simpática e prestável, pouco me conseguia falar sobre o historial do carro. Depois de descobrir qual das 3 chaves era a da porta, e qual delas era a da ignição, tinha chegado então ao momento em que iria dar à chave, e traria o pequeno fiat de volta à vida depois de 6 meses parado (tudo para dar certo). Não aconteceu nada. Passei os comandos ao Júnior (mecânico amigo que trouxe comigo) e depois de uns minutos a “puxar o ar”, finalmente conseguimos trazer o carro à vida. (Devo informar que para mim até então, apesar de um grande entusiasta automóvel, “puxar/abrir o ar” eram expressões e rituais obscuros do mundo oculto ). Uma garagem escura (e uma visita à noite!) não é um bom ambiente para observar bem o estado de um carro, portanto, cuidadosamente conduzi o carro até ao exterior, onde de seguida dei uma pequena volta pela zona. Conduzir um carro diferente pela primeira vez é sempre uma experiência empolgante, mas empolgante é um termo bastante volátil, como todos sabem. Sempre preferi os carros de condução pura, sem direcção assistida, sem assistências e outras distracções electrónicas. Mas uma coisa é um carro “pesado” de mecânica, e outra é um carro “pesado” de má mecânica. Na curta viagem no 127, deu tempo para jogar às escondidas com a caixa de velocidades, para recalcar a fita-cola que mantinha o volante inteiro, e até para perceber que os espelhos não se seguravam, as luzes do tablier não funcionavam e o carro não tinha travões. Conclusão: Adoro o modelo, mas nem pensar. Para ficar aceitável necessitaria do valor do carro investido em cima do preço de custo. Não tinha dinheiro, nem experiência para me meter já em tal aventura. Voltando da viagem, despedi-me da Senhora e agradeci pelo tempo dispendido. Recebi o clássico “Olhe que lá fora fazem fila para ver o carro!”  e parti para a próxima viagem. Foi uma desilusão, mas ao mesmo tempo um abrir de olhos determinante. 

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2ª VISITA – Para a segunda visita, fui ver algo completamente diferente: Nada mais, nada menos que um Fiat 127 Mk2! (Prometo não ser tão extenso) Já com uma noção bem clara e com uma boa base de comparação, combinei com o dono um ponto de encontro e lá fomos ver o carro. Desta vez, fui acompanhado apenas pelo meu pai (que tinha como função ser meu wingman e meter defeitos em tudo para desvalorizar o preço do carro) . Ele gostava especialmente de me picar, numa tentativa quase desesperada de me tentar demover de comprar um automóvel antigo.

“Vês? Ele está a vender o clássico porque anda num carro moderno! Ele é que é esperto!”

Desta vez fomos recebidos pelo dono do carro, que aparentava ser um connoisseur e entusiasta automóvel. Apesar de não me dar nenhuma garantia palpável, dá-me sempre alguma segurança estar a analisar um carro de outro amante de clássicos. Durante a visita ainda deu tempo para dois dedos de conversa sobre concentrações e exposições que ambos visitamos, carros e marcas que apreciamos e o entusiasmo geral que sentimos sobre o automóvel. Este Fiat 127 estava a milhas do último. Estava perfeitamente funcional e muito bem estimado, apesar de algumas pequenas alterações que fugiam ao estado original. Já não tinha o mecânico comigo, portanto dei apenas uma vista geral na chapa, motor e interiores. Sem mecânico não ia tomar nenhuma decisão, portanto também não me valia a pena fazer o test drive. Não gosto de fazer ninguém perder o seu tempo, portanto marquei uma próxima visita para a semana seguinte e agradeci mais uma vez ao anfitrião pela sua disponibilidade em receber-me.

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3ª VISITA – *A minha terceira visita não estava inicialmente nos planos. Qual a minha surpresa quando o meu pai me liga a dizer que marcou um test drive com um Seat Ibiza 1.2 System Porsche de 88. Será que o teria finalmente convertido? Sou sincero, para mim tanto a Seat como a Volkswagen tiveram uma idade das trevas em termos de desenho dos automóveis que me custou imenso a passar. De finais de anos 80 até depois de 2010, foram quase 30 anos de modelos que desgostei quase por completo. Aprecio a 1ª geração do Ibiza, do Golf e até do Polo, mas daí para a frente até muito recentemente não consegui sentir empatia por nenhum, por alguma razão. Este Seat Ibiza não era um modelo que estava inicialmente nos meus planos, mas é sempre bom sair da zona de conforto e experimentar coisas novas. A única razão que me colocou logo de pé atrás à partida foi o facto de ser a versão de 5 portas. Sempre preferi as proporções mais harmoniosas de um carro de 3 portas, sem aquele esticão necessário para as portas extra. De resto, estava em relativo bom estado e a um preço imbatível, bom de mecânica e de chapa. Era branco com uma lista azul que lhe dava até um aspecto um tanto desporivo. Neste momento, ia na minha terceira visita, e deparava-me com um terceiro tipo de dono: Tinha o carro há dias e mal conhecia o anterior proprietário. Comprou o carro por tostões num negócio por impulso, durante uma visita à oficina em que ouviu um outro cliente dizer que queria despachar o carro. Concluíndo: Era alguém que viu uma oportunidade de negócio e quis fazer uns trocos rapidamente, comprando e vendendo barato.

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4ª VISITA – A minha quarta visita foi a um Toyota Starlet ep70 de 1988 de cor vermelha. Como já terão percebido, foi o automóvel que acabei por comprar. Apesar de ter uma lista extensa de outros anúncios que gostaria de ver e testar, há que saber repensar a estratégia quando tropeçamos em algo realmente proveitoso no caminho. O segredo nestas alturas é agir rapidamente, mas sempre de forma acertiva. Pior que fazer um mau negócio, é deixar fugir um bom porque fomos lentos demais. Combinei com o dono uma hora e fui visitar o carro, sem fazer ideia que umas horas mais tarde estaria a fechar negócio. O carro estava estacionado de costas para a entrada da rua, e por alguma razão gravei aquela visão na memória. O proprietário desta vez era um senhor que para além de entusiasta de automóveis e motociclos, era também restaurador. Na sua colecção tinha, entre outros, um Citroen 2CV restaurado e várias Vespas. Mais uma vez, apesar de não ser uma garantia, perguntem sempre qual é o background automobilístico da pessoa em questão, assim como a história que tem com o carro. Neste caso, o Starlet foi adquirido para ser mais um projecto de restauro. No entanto, na fase final do mesmo, a falta de tempo e mudança de emprego ditaram que, entre os outros carros e motas, não sobraria muito tempo para dar umas voltas no Toyota. A consciência de um entusiasta é pesada, portanto mais vale vender do que deixar ao abandono.

Fazendo uma análise ao carro, a primeira coisa que (não) aconteceu foi o motor pegar. Estava parado à umas semanas e a bateria parecia estar a dormir. Uns cabos de jacaré depois, o cago pegou à primeira, e mais uma vez defrontei-me com a questão do “puxar o ar” (Estava a começar a gostar da ideia). O carro tinha os interiores imaculados. Todos os instrumentos estavam funcionais, e tinha inclusivé o rádio de origem da Toyota. A mecânica também estava boa e no geral tinha muito bom aspecto. Contudo, o exterior iria precisar de uns retoques: A chapa tinha algumas amolgadelas (sem ferrugem) e um dos farolins traseiros estava partido. Uma das calhas do tejadinho também estava ressequida e faltavam os centros de plástico das jantes. Tudo isto teria que ser rectificado para o carro ficar a 100%. A pintura estava impecável e a cor vermelha dava-lhe um certo ar desportivo (e é uma cor com a qual me identifico). O preço estava muito convidativo, e dado o historial do carro e do actual proprietário, comecei a repensar na minha cabeça todo o plano que tinha programado para a procura de carro. Naquela altura já tinha marcados mais algumas visitas, mas senti que estava perante uma grande oportunidade, portanto decidi agilizar o processo e fazer uma escolha.


Afinal de contas, o que pode correr mal num test drive a um clássico barato?

Se já passaste pelo mesmo processo atribulado de compra e test drive de um clássico, quero ler a tua história. Envia-me a tua experiência para – joelaraujocom@gmail.com


 

Na 3ª e parte final da série “A pré-história de um clássico”, irei falar sobre o momento final da confirmação, assim como o acordo de preço e fecho do negócio.

 

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Um pensamento em “A pré-história de um automóvel [pt2] – Test Drives.”

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