Viver com um clássico – Uma análise prática a um Toyota Starlet ep70

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Viver com um clássico” é mais uma categoria de textos que irei desenvolver neste grande diário de bordo que é o Tu precisas é de um Clássico. Ao contrário dos temas “Eles também têm um clássico“, “Aprender com os clássicos dos outros” e “A pré-história de um clássico“, este é o que mais cumpre o objectivo do blog: Demonstrar que é perfeitamente possível, ou impossível, alguém jovem, inexperiente e sem dinheiro, ter um carro clássico como veículo diário. No fundo, o que quero dizer é que este é o 9º e ao mesmo tempo o 1º texto que devem ler.

Enquanto que na pré-história de um clássico puderam tomar conhecimento do meu processo de pesquisa, testes e compra* do grande anfitrião deste blog, um Toyota Starlet ep70, nesta categoria de Viver com um clássico, irei falar abertamente sobre como é, afinal, viver diáriamente com um carro de 1988. *O episódio da compra ainda não foi publicado. 

Devo informar que, à priori desta epopeia em busca pelo meu primeiro carro, o bólide mais antigo que tinha conduzido tinha sido um Ford Capri, e apenas por breves minutos. Fora disso, a minha (in)experiência resumia-se ao VW Golf IV TDI da escola de condução, ao Opel Zafira 1.6 do meu pai, ao Toyota Yaris mk1 da minha irmã e ao Polo a Diesel do car-sharing onde trabalhava. Para além destes, conduzi mais uma série de carros diferentes (20 para ser exacto), mas durante perídos de tempo demasiado curtos para se tornarem relevantes.

Agora que conhecem a minha falta de bagagem, vou analisar da forma mais fiel e sincera possível o meu carro, através de criteriosos tópicos de inspecção abaixo assinalados:

  • Consumos
  • Conforto & Equipamentos
  • Condução
  • Performance
  • Praticalidade 
  • “Manias” 
  • Bónus Clássico 

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Consumos- 

Posso considerar que tenho um carro económico. Afinal de contas, era esse um dos critérios de selecção que falei há uns tempos atrás. No entanto, este “económico” tem um tanto de selectivo: Apesar de ter apenas 1000cc e 52 cavalos, estamos a falar de um motor de ’88 com carburador, e de uma caixa de apenas 4 velocidades. Isto traduz-se nuns perfeitamente aceitáveis 6 litros aos 100km/h dentro de cidade. Fora de cidade é outra história: Mal sabia eu que o carro vinha de fábrica com um GPS invisível e inteligente, que detecta quando entro numa autoestrada. (Pois é, nos anos 80 a Toyota já vendia carros com GPS!) O que acontece mal ponho uma roda fora da cidade é o seguinte: O motor encara o seu alter-ego de bêbedo incorrigível e faz con que, a velocidades superiores a 90 km/h, consiga ver a agulha da gasolina a baixar em tempo real. Factor que é inflacionado pelo depósito deveras minúsculo. Resumindo: Super económico em cidade, mas nem tanto fora dela. 

Conforto & Equipamentos-  

Gosto imenso de usar o termo “espartano” para classificar o interior de um automóvel. No caso do Starlet, puxaria apenas do eufemismo minimalmente funcional. Existem dois tipos de carros: Aqueles que são concebidos, mas construídos ao desbarato, e aqueles que são concebidos para serem baratos. Felizmente encontro-me na segunda categoria: Não tenho vidros elétricos, não tenho espelhos elétricos, não tenho bancos ajustáveis, não tenho leitor de CDs nem MP3, não tenho instrumentos digitais, não tenho ar condicionado, não tenho direcção assistida, não tenho travões ABS, não tenho sensores de parqueamento, não tenho Airbags, não tenho fecho centralizado, não tenho suporte para copos, nem mais nenhum gadget inútil que sirva apenas como ferramenta de marketing para aumentar o preço do automóvel. O único luxo que vejo é ter os cintos de segurança nos bancos traseiros. A verdade é que nada disto me faz diferença. Dispenso absolutamente tudo o que não seja essêncial à experiência de condução, à excepção talvez do rádio em longas viagens sozinho. Aprecio em especial a qualidade honesta e prática dos materiais no cockpit, assim como os instrumentos que gritam anos 80 em japonês. E não existe nada mais genuíno e prático que isso.

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Condução-

Gosto imenso da posição de condução e da forma como o volante está posicionado abaixo do normal, criando uma relação mais desportiva entre condutor e máquina. Gosto da excelente visibilidade para o extrerior, assim como da forma como o som do motor e do escape circulam livremente e de forma totalmente analógica pelo interior do carro. Não há abafadores nem escapes falsos. O Starlet é um carro perfeitamente civilizado, mas não trata o condutor como se fosse um ignorante cuja carta de condução foi atribuida por favor. Ele não te dá a mão, nem é politicamente correcto. Portanto não se importa de te fazer suar um pouco ao manobrar o volante, ou de te dar algum trabalho na hora de o ligar quando está frio. No entanto, tem uma direcção bastante directa e que transmite bem para o volante o que se passa na estrada. Tem uma suspensão dura qb, que não se importa de te abanar quando é preciso. Tem uns pedais responsivos e bastante progressivos. Porém, o que mais destaco pela positiva é a caixa de velocidades. O feeling mecânico da manete faz com que cada engrenagem me faça um pouquinho mais feliz de cada vez que aumento ou reduzo de velocidade.

Performance-

Apesar de ágil e com um bom arranque, a performance claramente não é o forte do Starlet. Tem 52 cavalos, motor de 4 cilindros com 1000cc, 12 válvulas a carburador e uma caixa de 4 velocidades. Em teoria tem uma velocidade de ponta de 150km/h, mas muito sinceramente nunca me aventurei para lá dos 120. Apesar da falta de músculo, a verdade é que também não é preciso muito mais para arrastar 760kgs + 70kgs, que é quanto pesa quando vou lá dentro. Claro que se algum dia decidir pegar em mais 3 amigos cheios de malas e decidir ir de Aveiro a Viseu, sou capaz de ter que abrandar um pouco nas rampas. Mas isso é só se algum dia o decidir fazer!

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Praticalidade- 

Já falei por meias palavras na praticalidade nos tópicos anteriores, mas sinto a necessidade de gabar o Starlet numa coisa em específico: Consigo carregar nele a minha bateria completa + um passageiro! Todos os músicos (principalmente os bateristas) sabem as dores de cabeça que é ter que transportar uma bateria de um lado para o outro. Felizmente no Starlet cabe, e para mim essa é toda a praticalidade que preciso.

Manias-

Todos os carros antigos têm manias. Nem que manias sejam apenas sinal dos tempos. No meu caso, o Starlet assemelha-se bastante a um carro moderno no que toca a procedimentos. Confesso que um momento que me acelera o coração é sentar-me no banco para ligar o carro numa manhã fria. Eu sei que ele vai pegar, só não sei quantas vezes irá abaixo antes de conseguir segurar o relenti. É um jogo delicado de equilíbrio entre abrir/fechar o ar e trabalho de acelerador que ainda não aprendi a dominar. É saber quando devo e quando não devo dar um toque no pedal para ligar sem correr o perigo de encharcar uma vela. Desilgar o carro também é sempre engraçado, visto que nunca antes tive que carregar num botão para conseguir tirar a chave do canhão. Talvez o episódio mais engraçado que o Starlet proporcionou foi, não a mim, mas ao meu pai, numa ida à bomba de gasolina. Não há válvulas nem dispositivos de segurança no alimentador do depósito de gasolina. O meu pai não sabia disto, portanto limitou-se a colocar a mangueira da gasolina e carregar com força até aquilo automáticamente parar. Não parou, e alguém levou um banho de Sem chumbo 95 naquele dia. O carro não tem que te avisar quando o depósito está cheio. Tu é que tens que saber quanto é que ele leva e largar a mangueira quando é preciso, não é?

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Bónus Clássico-

Esta categoria de análise foi descoberta ao acaso, durante a minha condução em ambiente urbano.
Quem nunca levou com apitadelas por demorar mais que 1 segundo a reagir à luz verde dos semáforos? Quem nunca foi cordialmente convidado a bugiar depois de uma manobra menos própria? Quem nunca levou com um olhar ameaçador por conduzir devagar demais? Bem, eu no Starlet, nunca! É milagre. Sinto que tenho um repelente contra a fúria dos restantes condutores que partilham a estrada comigo. Um carro antigo tem destas vantagens! As pessoas são mais tolerantes com eles, pois sabem que se estão a andar devagar, é porque não dão mais! Se demoram a arrancar num semáforo, é porque talvez foram abaixo! Se fizeram uma manobra menos própria, é porque deve ser um idoso parcialmente invisual que o conduz. Sabem que mais? Nestas ocasiões, não me importo de ser confundido com um velho. Esquecendo o Starlet por instantes, todos concordam que um clássico esboça sempre um sorriso na cara de quem o vê passar na rua. É frequentemente motivo de admiração e comentários. Já para quem os conduz, é uma espécie de vaidade, mas uma vaidade humilde. É diferente de andar na rua com um super carro moderno caríssimo, tipo um Ferrari ou Lamborghini. É uma vaidade que advém da determinação que é conduzir um clássico. Vaidade de termos optado por um caminho diferente das massas. Vaidade de ter o carro sempre o mais limpo e bem estimado possível. Ao mesmo tempo, humildade de saber que a qualquer momento qualquer coisa pode correr mal. Humildade de conduzir um pedaço de história que em tempos terá sido mais um carro vulgar. Humildade de abdicar de toda a tecnologia e facilitismos de um carro moderno, para abraçar o purismo da condução. 


 

Nos próximos textos da série “Viver com um clássico” irei falar sobre algumas fábulas do léxico automóvel clássico, tais como as visitas à oficina, ir à caça de peças, o vício do detalhe entre outras.

 

 

 

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Um pensamento em “Viver com um clássico – Uma análise prática a um Toyota Starlet ep70”

  1. Já conduzi carros modernos e carros antigos e escolho carros antigos. O meu pai tem um Corsa GPL de 2014 e é um excelente carro, mas há sempre algo de especial na experiência de conduzir um carro com história e estórias para contar. Quando comprei o meu ainda ouvia pontualmente o “ah e tal compraste um carro velho”, mas com o passar dos anos e com a dedicação que tenho dado ao carro cada vez mais se invertem as opiniões para a positiva. Há também muitos mitos relacionados com carros clássicos e terei todo o gosto em dar o meu input 🙂

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