A Estrada Real EN2 – Dia 7 (Faro)

Dia 7 (50km)
Loulé-Faro-Quarteira-Vilamoura

Não reza a história que ao sétimo dia, o Starlet descansou. Mas é verdade.

Antes de darmos por terminada a viagem no marco final dos 738km EN2, estivemos ainda em Loulé a tomar o pequeno almoço e a visitar a emblemática obra neo-árabe construída no final do sec. XIX, o Mercado Municipal de Loulé. Das várias pastelarias que este alberga, fomos logo parar a um que nos deu o serviço mais antipático do dia, da viagem, e quase de sempre. Será que a senhora descobriu que somos portugueses aka pobretanas? Acho pouco provável, dada a nossa camuflagem: Pela cor de pele, eu e o Sérgio vínhamos directamente da Noruega, e o João do Equador. As nossas roupas gritavam “Estou aqui pela praia” e o nosso dialecto, quando não era a cantar músicas espanholas, era de tal forma nortenho que pior, só mesmo Mirandês.

Seguímos viagem até Faro, onde o autocolante do Starlet se iria finalmente encontrar com o seu primo afastado feito de pedra. Tal como ao km zero em Chaves, não estávamos para cerimónias: Estacionámos o carro mesmo em cima do passeio, deixando de parte qualquer vergonha ou remorso. Sabes que estás no Sul quando fazes isto e és completamente ignorado. Em Chaves bastou meter um pneu por cima da rotunda e toda a cidade veio a correr para assobiar e troçar conosco. Em Faro nem um olhar, nem mesmo dos três carros de patrulha da GNR que passaram enquanto ali estivémos.

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Com um sentimento de missão cumprida, e postos de parte os planos cronometrados de visitas e refeições, entrámos no carro e quebrámos ,pela primeira vez na viagem, todos os limites de velocidade legais em direcção à praia. Chegámos a Quarteira (Nunca digam “na” Quarteira perto de um algarvio) e nem nos dignficámos a almoçar em condições. Competimos a ver quem fazia a digestão mais rápida e mandámo-nos de cabeça para a água.

Éramos com certeza absoluta as pessoas mais pálidas daquela praia. Facto agravado pelo nosso protector solar marca Cimpor. Sou geralmente muito friorento, e o tempo que demoro a mergulhar no mar costuma ser medido com um calendário. E quando toda a gente me dizia que no sul a água é que é boa, sempre achei que isso fosse um exagero.
Não é.

Depois de horas a saltitar na água como 3 crianças felizes, o fim do dia aproximava-se e, pela primeira vez na viagem, não iriamos estar por nossa conta durante a noite.

Apresento o nosso anfitrião: João Artur Silva é um aficionado dos Clássicos e vive em Olhão. Tem uma 4L e um Peugeot 205, e conhecio-o através deste blog e também a partir do Portal dos Clássicos. Ainda estava eu em Chaves a começar a viagem e já tinha recebido mensagem do Artur com o contacto dele, a informar que quando chegássemos a Faro que ele vinha ter conosco. Passado 7 dias estávamos nós em Faro, e como prometido, ele veio ao nosso encontro. Um dia antes, ele anuncia no meu perfil de Facebook que está pronto para nos receber. Até aqui tudo bem, mas o João e o Sérgio notaram algo de incomum na mensagem que ele escreveu. Uma pessoa normal diria: “Já me fui arranjar para vos receber em Faro…” ou “Já preparei um roteiro especial para vos receber em Faro…”, ou até preferencialmente “Já arranjei umas jeitosas para vos receber em Faro…”  Mas não. O Artur escreveu isto:

“Já fui lavar o carro para os receber em Faro…” 

Numa primeira instância não encontrei nada de anormal nesta frase. Como amante de Clássicos, se fosse receber alguém em Aveiro não me sentia bem em aparecer com o Starlet sujo. Já o João e o Sérgio acharam um piadão a estas regras de etiqueta entre fãs de Clássicos. E há que admitir que há uma certa graça nisto.

Como anfitrião, démos liberdade ao Artur para escolher um restaurante para ir jantar. Com prontidão marcou-nos a última mesa da concorrida Tasca da Vila, uma casa de tapas em Vilamoura. Estando mesmo ao lado da marina, fomos lá digerir as conquilhas e dar um hi-five ao Figo, que estava ocupado a tirar finos (desculpem, imperiais) no bar dele. A marina de Vilamoura é um local conhecido de carspotting, mas infelizmente nessa noite não vi nada de particularmente interessante ou de bom gosto. Mercedes, Mercedes, Mercedes, Mercedes e um Hummer com pintura fosca. Desiludidos fomos afogar as mágoas para o melhor sítio de todos para o fazer: Um bar de ingleses com karaoke.

De regresso a Loulé ainda deu tempo para tirar esta foto às máquinas e aos pilotos. Foi muito bom, depois de tantos dias de viagem, ser recebido desta forma. Um obrigado especial ao Artur pela disponibilidade em receber estes 3 estranhos e um Starlet em sua “casa”.

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A Estrada Real EN2 – Dia 6 (Beja-Loulé)

Dia 6 (220km)
Beja-Aljustrel-Castro Verde-Loulé

Apesar de ser apenas no dia seguinte que passaríamos pelo último marco dos 738km da EN2, o dia 6 marcou a entrada no distrito de Faro, a última etapa desta grande viagem. Acabou também por ser um dos dias que mais gostei nesta aventura.

A manhã foi passada em Beja, mais específicamente no Castelo a subir à Torre de Menagem, a maior da península Ibérica. Para além da vista ser incrível, é um daqueles locais que nos transporta centenas de anos atrás, onde tais muralhas se viram frente a frente com invasores árabes e europeus, num um último reduto de defesa para o Rei, sua corte e restante Nobreza. Contudo, e como no dia 18 de Agosto de 2016 não houve nenhuma grande batalha a assinalar, a nobreza pôde ir almoçar fora.

Fomos até Aljustrel comer a melhor carne à Alentejana de sempre, no Restaurante “O Cabecinha”. O ambiente fresco dentro do restaurante não fazia prever o calor infernal que se sentia lá fora. Além disso, a nossa próxima paragem era no topo de uma colina “ali perto”. Tratava-se da capela de Aljustrel, e do marco geodésico que a acompanhava. À boa moda alentejana, eu e o Sérgio não resistimos à mistura soporífera de cansaço+refeição opípara+calor e fomos obrigados a uma paragem estratégica nas boxes para uma soneca à sombra daquela pirâmide de betão.

 

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Depois de Aljustrel seguimos viagem, mais uma vez pela planicie alentejana, até chegar a Castro Verde. Visitámos a igreja e o centro da vila, já a tarde mostrava sinais de querer acabar. Com toda esta ambiência nostálgica, e com o sentimento que a viagem estava a terminar, ultrapassámos o marco dos 700km já em plena serra do Caldeirão, antes de subirmos até ao miradouro do Alto da Arroteia, onde depois de quase 1500km de viagem (EN2 e desvios), avistámos pela primeira vez o Oceano Atlântico que banha a região do Algarve. Foi um momento lindíssimo, do qual vos deixo a fotografia (em baixo).

Já de volta ao carro, fizémos os últimos quilómetros do miradouro até Loulé, onde pernoitámos no Coreto Hostel, um local impecável com staff super simpático e instalações mesmo agradáveis. Fomos recebidos por umas belas raparigas espanholas à janela, e fomos para a camarata, onde de 10 pessoas, seríamos as únicas 3 portuguesas. Não haveria problema nenhum, não fosse o caso de virmos já desde Chaves a cantar Levantando las manos, moviendo lá cintura, con movimiento sexy (wow!) es el ritmo nuevo que trago para ti… Com esta praga na cabeça, foi impossível não libertar umas palavras de portinhol por engano no quarto. E claro está, só de escrever isto voltei a ficar com o raio da música na cabeça.

Fomos jantar ali perto, num restaurante cujo nome não me lembra a memória. Acho que começava por “A” e ficava colado ao Apolo e à Tasquinha da Malta. Bebi o meu único fino da viagem em forma de celebração da tão desejada chegada a Faro, e em honra do Starlet que não deu nem um problema em todos estes quilómetros.

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Dia 7
Loulé-Faro

A Estrada Real EN2 – Dia 5 (Évora-Beja)

“Évora e Beja? Mas isso não fica um pouco ao lado da EN2?” Perguntou e bem o colega Jorge Aleixo num comentário ao dia anterior, entre Pedrógão Grande e Évora.

Estas cidades, tal como outras que visitámos durante a viagem não são atravessadas pela EN2. São Pedro do Sul sendo outro exemplo flagrante. Estou a fazer um esforço mental enorme para encontrar uma analogia para justificar os nossos desvios: Fazer a EN2 e ignorar as cidades e vilas emblemáticas nas redondezas seria como passar numa qualquer recta da Galiza à noite e, bem, só passar. Estão a ver onde quero chegar?


Dia 5 (250km)
Évora-Montemor-o-Novo-Beja

No início deste 5º dia de aventura estava planeado fazer apenas uma pequena ronda por Évora e partir ainda antes do almoço. No entanto, ficámos apaixonados pela cidade e com tudo o que ela tinha para mostrar. Visitámos a pé o centro histórico, as suas praçetas, a Sé de Évora, o Templo de Diana, e claro está, a Capela dos Ossos, a verdadeira prova que os nossos antepassados tinham um sentido de humor apurado:
“Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”.

Não acham que os edifícios públcios modernos só teriam a a ganhar com este tipo de frases nas suas fachadas? Imaginem uma frase deste género numa prisão, num tribunal, num talho…Aceito sugestões nos comentários.

O almoço foi num dos 893 restaurantes da zona chamados “Alentejano”.  Curiosamente, ainda não seria aqui que provaria a melhor carne à alentejana da viagem. Évora supreendeu-nos  pela positiva. Adorámos a arquitectura, o piso empedrado, a malha irregular e estreita de arruamentos, as pessoas e o clima. Só não gostámos de uma coisa: Monumentos nacionais de interesse histórico com preço de entrada não é fixe.

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À saida de Évora, ainda de barriga cheia fomos visitar o castelo de Montemor-o-Novo que, apesar de parcialmente em ruínas, tem uma parte do antigo convento feminino que é usada para fins culturais. E isso é fixe. A paisagem natural à volta do Castelo é incrível, e tal como o no Castelo de Abrantes, a sua elevação permite que se aviste paisagem até dezenas de quilómetros de distância. Só o facto de lá ir respirar aqueles ares e absorver o ambiente tranquilo por si vale a pena. E neste caso é grátis.

Ainda havia muita estrada a fazer, e portanto entrámos no Starlet em direcção a Beja. A solidão e beleza da planicie alentejana é algo que tem que ser experienciado pelo menos uma vez na vida. As rectas intermináveis, as pequenas aldeias que salpicam o trajecto, os velhotes sentados nos bancos ao pé da estrada… Vale tão a pena. Fizémos uma paragem estratégica na freguesia de Odivelas (não a que estão a pensar), onde num pequeno tasco, entrámos em conversa com os locais. Isto acabou por acontecer mais algumas vezes durante a viagem, mas confesso que não tanto como gostaria.

A noite apróximava-se, assim como Beja. Fizémos o check-in na Pousada da Juventude de Beja, a 2ª pousada do dia. Talvez por causa disso, a diferença entre as duas notou-se de forma ainda mais abismal. Comparada com a de Beja, pensei por momentos que havia passado a noite num Hilton na noite anterior. Estranho como existe tanta discrepância ao nível de qualidade e oferta, dentro da própria rede de Pousadas de Juventude. Um dos beliches não tinha escada para a 2ª cama e o outro que tinha quase cortou um dedo ao João. Havia interruptores por todo o lado, mas nenhum deles funcionava. O balneário parecia retirado de um filme de terror e o pequeno almoço foi muito pobre. Valeu pelo café que era bom.

A noite estava muito agradável e por isso fomos a pé até à casa de pasto “Tem Avondo”, mais no centro da cidade. Esta expressão tão típica do Alentejo é sinónimo de satisfação, ou num tradução mais directa: “Estou a abarrotar”. Assim saímos de lá, dando de seguida um passeio pelas redondezas, onde o Cante alentejano deu lugar a umas sessões de kizomba pela praça central da zona. Sinais dos tempos, e sinal que era hora de sair dali para a cama.

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Dia 6
Beja-Loulé

 

A Estrada Real EN2 – Dia 4 (Pedrógão Grande-Évora)

Dia 4 (300km)
Pedrõgão Grande-Sertã-Vila de Rei-Abrantes-Évora

O dia começou bem cedo no parque de campismo do Pedrógão Grande, por três simples razões: Todas elas de pedra, de vértices pontiagudos e situadas tacticamente debaixo do meu saco cama.

Sob a observação cerrada de uma família de campistas acima da nossa tenda, arrumámos tudo rapidamente e voltámos à estrada. A primeira passagem foi na Vila, onde fomos tomar o pequeno almoço, e apesar de estarmos ainda bem longe do Alentejo, tais ares já se fazem sentir numa papelaria da zona, onde a simples tarefa de imprimir uns mapas a partir de uma Pen se mostrou a tarefa mais árdua do dia, e cara também: 2€ por 4 cópias A4. Depois deste pequeno atraso, finalmente atacámos a estrada, fazendo a primeira paragem na Barragem do Cabril, ainda em Pedrógão, antes de seguir para a Sertã. O calor começava a fazer-se sentir, assim como a típica arquitectura das casas do interior/centro. Neste 4º dia de viagem acabaríamos por visitar 3 castelos diferentes. O da Sertã (torre), o de Almourol e o de Abrantes.

Seguimos caminho até Vila de Rei, o centro geodésico de Portugal. Estes marcos históricos têm a mania de dificultar a vida aos visitantes de carro, mas há 200 anos atrás não previram que alguns desses visitantes fossem de Starlet. A subida até ao topo da colina foi feita em 1ª, num ronco a 4 tempos que vai ficar gravada para a história como a primeira invasão terrestre japonesa a Portugal.

Digo-vos que vista do topo é incrível, mas não vos vou estragar a surpresa.

Depois da descida ao som dos rateres da gasolina mal queimada, era hora de almoçar. Fomos ao “Cobra” no centro de Vila de Rei, restaurante que redefiniu o conceito de secretos de porco, pelo menos para mim.

O início de tarde foi passado a invadir mais um castelo, desta vez o de Almourol, bem no centro do rio Tejo. Confesso que tenho algumas vertigens, portanto não foi tarefa fácil. Assistimos a mais um casamento, e antes que a noiva se apaixonasse por estes 3 belos rapazes (acontece!) fugimos para Abrantes, também para o topo do castelo, e sem dúvida um dos pontos altos do dia (na minha opinião).

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Ao sair de Abrantes, finalmente atravessámos para lá do rio e estávamos pela primeira vez na margem sul. Facto que foi imediatamente observável pela mudança de paisagem e tipo de estrada. O verde deu lugar ao amarelo e as curvas deram lugar às intermináveis rectas.

A viagem até Évora foi longa e quase toda feita à noite, numa refrescante mudança de vent du sud.

A chegada a Évora foi feita já pelas 22h30, o que não pareceu, de todo! Era 3ªfeira, e as ruas estavam literalmente a abarrotar de gente! Grande parte turistas, é verdade, mas nunca esperei tal azáfama aquela hora. Fomos jantar um bom bacalhau à Pipa Redonda e, derrotado pelo cansaço, fui-me logo deitar. Consta que o João e o Sérgio ainda foram para as más vidas, mas isto fica off the record.

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Dia 5
Évora-Beja

A Estrada Real EN2 – Dia 3 (Viseu-Pedrógão Grande)

Dia 3 (230km)
Viseu-Tondela-Penacova-Pedrogão Grande

Ao acordar no terceiro dia de aventura, lembrámo-nos que apesar da viagem ser grande e haver muita coisa para ver, nós não somos turistas. Não precisamos de acordar todos os dias antes das galinhas para ir visitar tudo a correr. Chegada a esta conclusão, aproveitámos a manhã no conforto da casa da Marta (que apresentei no post anterior) e aproveitei para actualizar o blog, comer mais que o normal e ouvir mais umas histórias do Sr.João (pai da Marta).

Antes de partirmos em viagem, fiz um rápido check-up aos níveis de água e óleo do Starlet e não podia ficar mais satisfeito: Não perdeu uma gota de nada (Ao contrário dos ocupantes). A substituição do radiador e da junta da cabeça estão a dar resultados, e outro dos efeitos positívos que senti foi a ausência de perda de potência, mesmo nas estradas sinuosas de montanha que tinhamos percorrido. Só nunca tinha visto tanto pó dos travões nas jantes dianteiras, mas com as descidas até ao Douro não é de admirar. Limpa-se e assunto resolvido.

Antes de partirmos para Penacova fizémos uma pequena paragem na cidade fantasma de Tondela, onde não encontrámos nem uma bola de feno a rolar ao sabor do vento. Ver gente não seria fácil naquele sítio, mas nós não desistimos: Procurámos por toda a parte, até que apenas nos restava procurar na estação de arte rupestre. Durante cerca de 20 minutos andamos pelo meio da floresta, exaustos e já sem água. Quando toda a esperança parecia perdida, no fim do trilho e já no local das pinturas, encontrámos casal que foi até lá de jipe. Parecia uma miragem, e antes que conseguíssemos pedir-lhes boleia de volta à civilização, eles já tinham ido embora.

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Voltámos a pé até ao carro exaustos, numa visita que em vez dos 15min. previstos, demorou mais de uma hora. Felizmente o ponto seguinte da viagem não poderia ser mais adequado: A praia fluvial de Penacova. Até lá chegar tivémos que passar por um dos piores atentados à EN2: O corte feito pelo IP3 que se alarga por vários kilómetros até perto de penacova. Todos sabemos que a EN2 sofre de alguns destes cortes, mas sem dúvida este foi o pior para nós.

Depois de um banho refrescante no Mondêgo (motivo dos meus calções na próxima foto), partimos já ao anoitecer para o parque de campismo do Pedrógão Grande. Passámos por um dos trechos mais bonitos de toda a EN2, bem no alto das montanhas, com vistas incríveis sobre o património natural de Portugal.

Na chegada ao Pedrógão, mesmo sem ponta de luz, conseguimos ainda montar as tendas sobre a pedra mais dura do parque e acordar metade dos alojados no processo. Um dos momentos mais inesperadamente bons do dia foi o jantar no quartel de Bombeiros Voluntários do Pedrógão Grande, onde para além do ambiente acolhedor e bons preços, provei a melhor serradura da viagem.

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Dia 4 (300km)
Pedrógão Grande-Évora

A Estrada Real EN2 – Dia 2 (Régua-Viseu)

Dia 2 (150km)
Régua-Lamego-São Pedro do Sul-Viseu

O dia começou bem cedo na pensão “Casa Cardoso”. Talvez cedo demais para os restantes hospedados. Nós 3 sofremos daquele síndrome de estupidez matinal que nos faz rir sem motivo e pensar no que não se deve pensar, como por exemplo: Diferentes formas de assaltar frigoríficos, dado que não havia pequeno almoço para ninguém.

Acabámos por ir comer a um tasco no centro de São Martinho de Mouros, num daqueles sítios onde todo o léxico além de “aguardente, iscas de fígado, bifes de cebolada e broa” é visto como dialecto estrangeiro. Previsivelmente, “torrada” e “galão” foram alvo de um olhar estanho.

Arrancámos finalmente em direcção a Lamego, pelos trechos de estrada mais bonitos que já vi.

Irónico como a melhor forma que encontrámos de andar a pé, foi organizar uma viagem de carro. Durante este dia 2 acabaríamos por andar cerca de 11km a pé, cada um. Passo a explicar:

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Vêem? Está explicado.

O que vêem na foto é apenas um terço (no pun intended) da escadaria da Nossa Sra. dos Remédios em Lamego. Quem já esteve no Bom Jesus em Braga perceberá. O melhor de tudo é chegar lá cima de tronco à mostra prontos para o grito do ipiranga e apercebermo-nos que está a haver um casamento de emigrantes. O 4º casamento que vemos durante a viagem. (Por motivos de pudor, selecionei uma das fotos em que ainda não estamos sem roupa da cinta para cima) 

Antes de nos arriscarmos nesta escalada fizemos uma visita à torre de menagem de Lamego, e visititamos o centro histórico dentro e fora das muralhas. Sítios obrigatórios a visitar.

Com o apetite mais aberto que o do carburador do Starlet, almocei um bom prato de vitela com raspas de presunto à moda da terra no “Restaurante Novo”, mesmo em frente à Catedral. O João almoçou uma salada, mas é segredo.

De depósito cheio, seguimos para a próxima paragem que a Eva nos mandou (Eva é o nosso GPS, porque precisamos de um nome para insultar quando nos perdemos): São Pedro do Sul. As termas situadas nesta região são imediatamente reconhecíveis pelo seu estilo arquitectónico e pintura característica. Felizmente, todos temos menos de 60 anos e ir às termas ainda não consta nos nossos planos de férias. Fomos antes para as piscinas de Gerós, mesmo ali ao lado. Acreditem ou não, foi o meu primeiro mergulho do ano.

Fazia-se tarde e foi hora de partir para Viseu, onde pernoitamos em casa da Marta, grande amiga que conhecemos na Universidade. Fomos recebidos pelos pais, sempre simpáticos, de uma amabilidade incrível e sempre prontos a contar mais uma história. Antes de nos deitarmos tivémos ainda tempo de dar um salto à Feira de São Mateus, a feira franca mais antiga da Península Ibérica. As feiras francas já não são o que eram e como tal, os cavalos foram substituidos por carrinhos de choque, as tabernas por roulotes de farturas e a música medieval por “Esta m* é ké boa” tunts tunts. Consta que houve uma concentração de Clássicos lá durante o dia, mas não cheguei a tempo.

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Dia 3 (180km)
Viseu-Pedrógão Grande

 

A Estrada Real EN2 – Dia 1 (Chaves-Régua)

(Estes pequenos posts diários servem só para garantir às nossas mães que estamos bem.
No fim da viagem podem esperar por um artigo completo, com quantidade de fotos a condizer.)

Dia 1 (120km)
Chaves-Vidago-Vila Real-Régua

Depois de acordarmos quase toda a pensão com a nossa chegada a Chaves no dia anterior, dormimos algumas horas e levantamo-nos bem cedo para comer os excelentes croissants da Pensão Neutel (e “guardar” alguns para o caminho). Conseguímos o feito de nos perdermos nos primeiros 50 metros de viagem, mas não tardou estávamos no centro histórico de Chaves.


Nota: A nossa viagem começou antes do Km zero da EN2, só porque 738 kilómetros às vezes não são suficientes.


Como verdadeiros turistas de calções e chapéu, visitámos a torre de menagem; discutimos possibilidades de utilização dos canhões da muralha; contámos os 37 cabeleireiros que existem naquele raio de 100 metros; Tentei cortar o cabelo no “Corte Implacável” mas sem sucesso; Ultrapassamos a ponte Romana; Cheiramos a película biológica da superfície do rio Tâmega; Atravessámos o rio pelas poldras (sem cair, nem morrer); Vimos um Starlet irmão e fomos para o início da EN2. Cometemos uma ilegalidade mesmo em cima do marco do Km 0 (nada de obscenidades!) e finalmente demos por iniciada a viagem.

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Seguimos para o Vidago Palace onde substituimos a legenda Toyota por uma da Rolls Royce e colámos uma Spirit of Ecstasy no capô para tentar entrar pela cancela principal. O segurança estava a cair no disfarce que nem um patinho, até reparar que o João tinha a barba por fazer e eu vestia uma camisa da Springfield. Mandou-nos dar a volta.

Desiludidos, partimos para Vila Real onde enterrámos a máguas com um bruto almoço (o primeiro de muitos) no Restaurante panorâmico “O Amadeus”, e demos num passeio até ao miradouro e estação de comboios abandonada.

O fim da tarde aproximava-se e era hora de seguir para a Régua. Com um calor quase insuportável, vimo-nos obrigados a dar à manivela e ligar o ar condicionado ao máximo. Fizemos uma visita à barragem onde nos juntámos aos olheiros de barcos turisticos e, claro está, tirámos nós também umas fotos no pôr do sol. Tudo em nome da amizade.
Mais uma vez não poupámos despesas na hora de encher a barriga, e pedimos uma colossal posta de vitela à moda da Régua no Restaurante à beira rio “O Maleiro”. Posto isto, e porque estamos em Agosto e toda a freguesia do interior tem algum Santo para celebrar, aproveitámos. Horas depois, frustrados com a nossa falta de habilidade no jogo da malha e fartos de jogar nos matrecos de graça, arrancámos de novo e seguimos para a pensão “Casa Cardoso”. Mesmo o facto de estarmos num sítio chamado “Régua” não nos impediu de fazer mal os cálculos e percorrer mais 10km do que o previsto para lá chegar.

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Amanhã há mais.
Dia 2 (150km)
Régua-Viseu